Todo esse amor
reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a
tristeza
Ora, tenha a fineza
De devanear.
Um dia eu era o rei
Era o bedel e era
também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado
a ser feliz.
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se
admirar
Que andava nua pelo
meu país.
No teu corpo eu era
feito tatuagem
Que é pra te dar
coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem
Agora o meu coração
você pega, esfrega
Nega, mas não lava.
Nele você brincou
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e me mata
Quando a noite vem
Mas apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
E no esbanjar da
poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear,
O dia raiar
Sem lhe pedir
licença.
E nos músculos
exaustos
Do teu antigo abraço
Repousar frouxa,
murcha
Farta, morta de
verdade.
A cicatriz
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva.
Que me retalha em
postas
Dor que se mostra
Quando a noite vem.
Agora era fatal
Que o faz de conta
terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não
tem mais fim.
Mas apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia.
PS.: Mescla de composições modificadas de Chico Buarque.

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